The Last of Us: o episódio 6 alterou a origem do relógio de Joel, mas isso é bom ou ruim?
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The Last of Us: o episódio 6 alterou a origem do relógio de Joel, mas isso é bom ou ruim?

O último episódio da série da série de TV The Last of Us, da HBO , talvez tenha sido o menos polêmico dessa segunda temporada. Com...

Deco Campos Deco Campos há 11 meses
Nota N/A

Leitura crítica

O último episódio da série da série de TV The Last of Us, da HBO , talvez tenha sido o menos polêmico dessa segunda temporada. Com...

O último episódio da série da série de TV The Last of Us, da HBO, talvez tenha sido o menos polêmico dessa segunda temporada.

Com classificação de 100% das críticas positivas no Rotten Tomatoes, O Preço (The price, no original) fala sobre um tema delicado à lore do game, mas que é pouco discutido pela comunidade: a paternidade.

Joel é, talvez, a figura paterna mais famosa da cultura pop e que influenciou, na época, muitos produtos audiovisuais, desde o videogame até filmes.

Depois do sucesso estrondoso do game, virou tendência vermos essa dinâmica se repetir no audiovisual: em God of  War (2020), por exemplo, ou, para ser mais óbvio (em temática e estilo visual) no ótimo filme Logan (2017), em que Wolverine repete o papel de Joel ao tentar proteger a X-23 durante toda a sua jornada.

Mas toda obra que inspira, também teve sua inspiração: muita gente considera que o filme francês O Profissional (The Professional), de 1994, que lançou, na época, a atriz mirim Natalie Portman e tornou popular nomes como Jean Reno e por sua maravilhosa atuação, Gary Oldman.

Antes de voltar ao tema, uma pausa, gente: se não assistiram a esse maravilhoso filme, assistam!

Mas enfim, tudo isso para citar uma relação comum entre as obras: todos eles tem um tema comum, a paternidade.

E o episódio 6 da série de TV alterou a origem de um elemento muito popular na lore de The Last of Us – passou despercebido de muita gente, outras pessoas não gostaram.

Mas, vamos aos fatos…

A origem do relógio de Joel em The Last of Us Part I

No primeiro game, vemos Sarah dar o relógio ao pai no dia de seu aniversário – 26 de setembro de 2013.

A data também é o dia do surto do Cordyceps, ou Outbreak Day, o fungo que infectou os seres humanos criando uma pandemia de zumbis. Horas depois, na madrugada do dia 27, Sarah tragicamente morre nos braços de Joel depois que um soldado do exército dos EUA durante a tentativa de controlar a crise sanitária em Austin, no Texas.

Durante o acontecimento, Joel cai, Sarah é fatalmente baleada e, segundos depois, na tentativa de reanimar sua filhinha (e numa das cenas mais emotivas da história dos games) a vê morrer em seus braços.

Durante a cena, é possível ver o relógio de Joel com o vidro quebrado, por aquilo que parece ser um estilhaço de bala.

A partir daí, os ponteiros permanecem inertes, simbolizando que a vida de Joel não possui mais sentido devido sua paternidade ter sido interrompida de forma cruel.

A série de TV marca uma nova origem para Joel e seu relógio

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Imagem: Game Overdrive/ Deco Campos

No último episódio da série da TV, temos pela primeira vez na lore (quando cito a lore, quero dizer a “mitologia” de The Last of Us), um vislumbre da infância de Joel.

A ideia foi sugerida por Craig Mazin, um dos criadores da série e escritores, segundo Neil Druckmann, o criador original, como se pode ver no vídeo de bastidores do episódio lançado pela HBO.

O adolescente Joel está conversando com Tommy, em 1983, no primeiro flashback do episódio. Seu irmão caçula está apreensivo porque vai apanhar do pai de cinta.

Joel, num rompante de complexo de herói (vamos voltar mais à frente nisso), diz para Tommy não se preocupar porque será ele a apanhar por assumir a culpa.

O pai chega, vemos que ele é um policial durão e seu nome é Javier Miller. Interpretado pelo ótimo ator Tony Dalton (Gavião Arqueiro/Marvel e Better Call Saul), surpreendentemente inicia um diálogo ao contrário de partir para a violência para punir o filho.

Na conversa, conta a Joel como o seu avô era duro com ele, muitas vezes passando dos limites ao lhe aplicar castigos físicos violentos.

Javier diz que ele tenta ser um pai melhor do que foi o seu e adverte Joel de que deverá ser uma figura paterna melhor quando chegar a sua vez.

Mas um elemento sobressai durante essa conversa: no final da cena, Javier toca o ombro de Joel e vemos em seu braço, nada menos que o relógio que o filho usará durante toda a sua jornada nos dois jogos.

Craig Mazin, por meio de seus roteiros magistrais, é mestre nisso (e desde os tempos de Chernobil, outra série magnífica da HBO): conectar flashbacks ou os foreshadowings com a narrativa e os temas abordados na série.

Diferente do game, sabemos que agora, o relógio de Joel é herdado de seu pai – e que Sarah o consertou mais tarde para lhe dar de presente (na TV).

A paternidade em The Last of Us passa a ser um legado amaldiçoado

Isso dá ainda mais dramaticidade ao simbolismo que o relógio já tem, significando a paternidade interrompida devido à trágica morte de Sarah.

Joel recebe a missão de ser melhor do que os patriarcas de sua família: isso quer dizer, renunciar à violência geracional despejada nos filhos.

A conversa de Javier e Joel evidencia isso: não partir para a violência e ter uma conversa mais franca, é dar um passo à frente na evolução da dinâmica entre pais e filhos, que costuma ser, às vezes, tão traumática.

O relógio, agora, tem essa transcendência na lore – antes mesmo de existir na Part I, ele já existe na série, simbolizando uma responsabilidade imensa para Joel enquanto indivíduo e pai.

No entanto, esse legado é uma espécie de maldição: o avô de Joel era violento demais, seu pai metia medo nele e em Tommy e, infelizmente, Sarah morreu.

O relógio e o Complexo do Herói em The Last of Us

Pois bem: sabemos que o relógio de Joel passa, agora, ter esse simbolismo transcendental em relação à narrativa do game.

Significa a sua missão de ser um pai melhor, menos violento, mais amável, compreensível e, sobretudo, protetor.

Em 27 de setembro de 2017, no entanto, isso tudo é interrompido de forma violenta: Joel vê sua garotinha morrer em seus braços.

Anos depois, Joel se torna contrabandista em um mundo apocalíptico em que as maiores ameaças são os outros seres humanos, não os zumbis.

Ele agora é um cara violento, também: capazes de coisas impensáveis (como ele mesmo admitiu a Ellie no primeiro jogo e como Ellie diz a Dinah na Part II).

Joel se vê recluso e preso em uma espécie de ciclo de violência, até encontrar Ellie, num apego emocional improvável ao redescobrir o sentimento de ser pai novamente.

Isso desperta nele aquele Complexo de Herói que já dizemos anteriormente, que ele experimentou com Tommy ao tentar proteger do pai.

Você conhece alguém que sempre se coloca no papel de salvador, mesmo quando não é chamado?

Esse é o Complexo do Herói em ação – um padrão psicológico muito marcante em Joel.

 Ele busca incessantemente \”resgatar\” os outros, muitas vezes negligenciando suas próprias necessidades, e que o levou até à morte quando decide proteger Abby.

Esses rompantes são cada vez maiores quando ele está ao lado de Ellie – basta ver como ele age quando Seth a xinga durante o Ano Novo no celeiro.

Mas Ellie é definitivamente a sua filha, agora.

E isso fica evidenciado na maravilhosa conversa na varanda: que na série de TV vemos no final do último episódio e no game, antes do confronto final entre Ellie e Abby.

Além da emocionante fala da Ellie sobre perdão, temos também outro novo elemento: “seja um pai melhor do que eu fui”.

É o legado de Joel passando para Ellie – e se você acha que o legado da paternidade para por aí, está enganado.

No game, logo depois que Joel morre, ao visitar sua casa em Jackson, Ellie vai até seu quarto e na cena em que acha os pertences de seu pai, acaba levando o relógio consigo.

Sim – ela fica com o relógio! Além de seu revólver.

Série e TV começam a enriquecer a lore que já conhecemos de The Last of Us.

Ellie, agora, tem a missão de levar o legado da paternidade dos Millers – amaldiçoado ou não.

É possível amar o jogo e gostar da série da HBO?

The Last of Us: a série de TV e o jogo não competem, é arte colaborativa!

Como fã que já zerou os dois jogos mais vezes do que consigo contar, posso dizer com convicção: a série da HBO não é só uma ótima adaptação, é uma expansão narrativa magistral.

E mais atento apreciador da franquia entende que a beleza está justamente nessa dualidade – onde a série não repete, mas reinterpreta o material original com inteligência e ousadia.

A escrita da série é brilhante (e sutil como o game)

O roteiro de Craig Mazin e Neil Druckmann não apenas respeita a fonte, mas aumenta sua profundidade com técnicas impecáveis:

  • Foreshadowing genial: A cena do \”você não é minha filha\” de Joel no episódio 1 ecoa no final da temporada, assim como no jogo – mas na série, a construção é mais gradual, mostrando a resistência emocional dele com nuances que o gameplay não podia explorar.
  • Flashbacks que humanizam: a história de Bill e Frank (ep. 3, Temporada 1) é uma aula de como expandir a  lore sem trair a essência. No jogo, Bill é um sobrevivente amargurado; na série, ganha um arco completo que enriquece o tema do amor em um mundo apocalíptico.
  • Mudanças que melhoram:  muita gente reclama da falta de infectados, mas isso, para mim, não importa muito! O importante é focar no que importa: os personagens. E, na TV, tempo é fundamental, com uma narrativa acelerada, é impossível focar tanto em zumbis (sério, gente, corria o risco de se tornar um derivado de The Walking Dead).

The Last of Us na TV não é uma cópia, é uma segunda chance de reviver esse universo (e um presente para quem nunca jogou).

A série preenche lacunas (como a origem da infecção pelo Cordyceps, que já era subentendido no jogo, mas deixa tudo mais claro); reinventa cenas icônicas, como o lindo beijo de Tess ao infectado (Ep. 2), sendo mais perturbador que no jogo – e mais simbólico; aproveita o formato, promovendo diálogos prolongados e explorando nuances que o jogo, por ser interativo, não priorizava.

Isso é raro: celebrem!

Adaptações costumam ser pálidas cópias (olá, Resident Evil da Netflix), mas TLOU na HBO é arte colaborativa.

O fã que reclama de mudanças perde a chance de ver sua lore favorita florescer em novas mídias. A série não apaga o jogo – ela conversa com ele, como um making-of luxuoso que revela camadas escondidas.

E, sinceramente? Que privilégio ter duas versões de uma mesma história, ambas excelentes, cada uma brilhando no seu formato. Se isso não é amor pela narrativa, não sei o que é.

\”Quando se está perdido na escuridão, procure pela luz.\” – E a série provou que, mesmo conhecendo cada frame do jogo, ainda há surpresas pela frente. 

Isso é storytelling no seu melhor.

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