Cinema e TV

Crítica – The Last of Us S2E6 – O Preço

Estamos nos encaminhando para o final da segunda temporada de The Last of Us , faltando apenas mais um episódio para que esse ano do show...

Matheus Cabral Matheus Cabral há 11 meses
Nota N/A

Leitura crítica

Estamos nos encaminhando para o final da segunda temporada de The Last of Us , faltando apenas mais um episódio para que esse ano do show...

Estamos nos encaminhando para o final da segunda temporada de The Last of Us, faltando apenas mais um episódio para que esse ano do show seja encerrado. Chegamos em um capítulo importante da história de Ellie (Bella Ramsey) e Joel (Pedro Pascal), justamente por ser o momento em que revelações são feitas e mais detalhes da trama acabam sendo mostrados para nós.

Este sexto capítulo é, sem dúvida alguma, o melhor episódio dessa segunda temporada de The Last of Us. Rico em emoção e com um ritmo acertado, o novo episódio vai nos levar para o passado dos dois personagens e enriquecer mais o contexto que já havíamos presenciado no jogo. Claro que mudanças e concessões precisaram ser feitas, mas o roteiro conseguiu entregar bem o que era necessário para tudo isso funcionar. O sentimento misto que tive na semana passada sumiu aqui, mas não significa que ele não retornará depois com o último episódio.

Lembrando sempre que essa crítica não possui spoilers da história para além dos acontecimentos mostrados na série. Pode seguir tranquilamente caso não tenha jogado The Last of Us Part 2 ainda.

O Preço: flashbacks e mentiras

\"The
Joel presenteia Ellie com o violão icônico. (HBO/Reprodução)

O nome do sexto episódio não tem uma referência tão clara a algo específico do jogo ou da história até aqui como foi nos anteriores. “O Preço” vai se referir mais a justamente aos acontecimentos da trama, sobre qual o sentimento que os personagens carregam após algumas escolhas e decisões que moldaram suas vidas. É aqui que vamos ter algumas respostas e mais detalhes sobre coisas que não necessariamente ficaram em aberto, mas são importantes para o desenrolar dos fatos.

A história resolve voltar bastante no tempo, retornando para 1983 durante a infância de Joel e Tommy Miller no Austin, Texas. Esse é um trecho que nunca foi apresentado no jogo e no making off, Neil Druckmann (que inclusive é o diretor do episódio) diz que a ideia partiu de Craig Mazin enquanto eles desenvolviam o roteiro para a segunda temporada.

Vemos que Joel e Tommy tinham um pai policial (Tony Dalton) que era bem rigoroso, mostrando que o personagem teve um passado violento em relação a sua figura paterna. O pai batia nos meninos como forma de coerção, criando os filhos de maneira violenta e descabida, já sendo um reflexo da própria criação.

Eu gostei desse contexto maior para a vida de Joel, visto que não sabíamos nada de como tinha sido um pouco da sua adolescência ou infância. Aqui também acabamos vendo que Joel sempre foi a pessoa que tenta carregar o peso de uma mentira caso seja necessário. Ele tem esse complexo de protetor, algo que vemos refletir no seu futuro, e protege Tommy ao saber que seu pai provavelmente o agrediria depois de saber o que havia acontecido.

Acredito que foi importante termos um pouco dessa noção de como Joel foi criado, qual sua relação com o pai e como o ato de mentir e a violência já fazia parte de sua vida muito cedo. São esses moldes que vão fazer de Joel Miller o personagem que conhecemos no futuro.

Para além disso, o sentimento do episódio inteiro é uma humanização de Joel por parte do roteiro. Fica claro aqui que a ideia era realmente mostrar lados mais sentimentais do personagem, trazendo um contexto mais forte para os acontecimentos do futuro.

O episódio vai ser um conjunto de flashbacks, por hora avançando para aniversários da Ellie, por outro encaminhando outros fatos necessários. Dois meses após chegarem em Jackson, no aniversário de Ellie, Joel a presenteia com um violão. Além disso, a garota se queimou propositalmente na panela para encobrir a mordida que tinha no braço, alegando querer usar blusas de manga longa.

Aqui vemos a promessa que Joel fez para Ellie de ensiná-la a tocar violão sendo cumprida. A série resolve agora fazer uma ligação direta com o episódio anterior ao mostrar Joel tocando Future Days do Pearl Jam, música essa que já havia aparecido um pouco com Ellie no teatro de Seattle. É para se conectar e trazer um peso direto: essa canção a faz lembrar dele e do que ela consequentemente perdeu.

A simbologia da mariposa (que falarei um pouco melhor depois) já começa a dar as caras aqui com Joel entalhando na madeira do violão o inseto. Não nego minha felicidade ao ver um pouco mais do que foi a primeira temporada nesse episódio. São momentos que não existem no jogo também, nos fazendo voltar para aquela ideia maravilhosa de expandir os acontecimentos da mídia original, o que funcionou tão bem na primeira temporada mas que deixou a desejar até aqui neste segundo ano.

Esse é um episódio que carrega um peso muito grande. Para além do momento do museu que é magistralmente realizado no jogo e que a série teria que fazer bem parecido, o episódio também tinha que resolver algumas questões que são importantes para o andar da história e apresentar um momento bem dramático.

\"The
A sequência do museu foi bem fiel ao jogo. (HBO/Reprodução)

Avançamos mais um ano e temos a adaptação da sequência do museu, com Ellie e Joel explorando a seção espacial do local. Durante o jogo, temos um momento bem maior do que este que não era de fato necessário ser apresentado. Tudo que foi trazido para essa sequência funcionou: o t-rex que Ellie sobe em cima; a caminhada pelo corredor estrelado do museu; o momento importante dentro da sonda espacial com os áudios do lançamento real do foguete. Deu tudo certo e isso talvez seja porque o próprio Druckmann dirigiu o episódio.

O mundo cruel e de cabeça para baixo de The Last of Us faz um pequeno passeio por um museu ser algo tão importante e cheio de valor. É fazer paralelos assim entre nossa rotina e a ficção que percebemos a necessidade de dar a devida importância para momentos simples. Principalmente se eles forem acompanhados por pessoas tão queridas, já que são as memórias que nos fazem conectar com o passado.

A atuação de ambos aqui é de encher os olhos. Pedro Pascal e Bella Ramsey completam a tela da TV com uma conexão e carisma gigantescos, demonstrando que os dois trabalham muito bem juntos. Não tem como reclamar do elenco dessa série de forma alguma.

Voltando para a narrativa, vemos que a construção da dúvida de Ellie em relação aos acontecimentos de Salt Lake City vai crescendo dentro dela com o passar dos anos. Essa tensão vai sendo gerada gradualmente conforme avançamos pelos flashbacks, e acabará sendo bem diferente do que acontece no jogo.

O aprofundamento da relação dos dois personagens vai sendo explorado a cada cena, desconstruindo cada vez mais o relacionamento dos dois. Vemos que a cada aniversário que passa, Joel se lembra com carinho de Ellie, demonstrando se importar e amar de verdade aquela que ele tomou como sua filha. Ao encontrá-la dentro do quarto com outra garota, usando drogas e fazendo a tatuagem no braço, Joel percebe que os resquícios de sua criação refletem no que ele é hoje pela forma que agiu.

Mas ele também acaba entendendo a frase que seu pai o disse no passado, que quando fosse a sua vez que ele fosse melhor. Joel relativiza o conflito que teve com Ellie, mesmo que a relação tenha ficado um pouco abalada, os dois ainda se tratam com muito respeito e carinho. Ainda que para Ellie isso venha se deteriorando e que o peso da dúvida acabe a consumindo por dentro com o passar do tempo.

O significado da mariposa (que agora também ilustra a tatuagem de Ellie) acaba assustando Joel. Ao ir procurar a simbologia por trás do inseto com Gail (Catherine O’Hara), ele acaba descobrindo algo que ressoa diretamente com Ellie e seus sonhos: a mariposa significa morte, estar sendo atraído constantemente para a luz, fazendo até um paralelo com os Vagalumes.

Morte é o que ronda a vida de Ellie desde o começo, afinal de contas ela perdeu sua mãe literalmente ao nascer, passou pela experiência de perder uma amiga/amor, além de todos os acontecimentos da primeira temporada e a perda de Joel. Tudo faz essa ligação triste e pesada, que adquire até um novo significado para ela e sua tatuagem. Pois foi exatamente ali que ela foi mordida pela primeira vez pensando ser a última, mas que também a confirmou uma especialidade rara. Ellie venceu a morte várias vezes durante sua vida.

A história nos leva até 9 meses antes dos acontecimentos atuais da série, quando Ellie completava 19 anos e já estava se preparando para ir na sua primeira patrulha fora dos muros de Jackson. Ela, que se indagou durante todos esses anos, escreveu diversas perguntas a respeito do acontecimento em Salt Lake City com os Vagalumes para confrontar Joel. Ellie anseia por uma resposta sincera sobre o que de fato aconteceu naquele hospital.

Ao saírem por uma rota mais segura, acabam sabendo no comunicador que Eugene e sua dupla foram atacados por infectados. Chegando no local, eles se deparam com Eugene mordido e sua dupla morta. O homem suplica por poder ver Gail mais uma vez antes de ser abatido, visto que seu amor por ela era enorme. Joel nega primeiramente mas acaba sendo “convencido” por Ellie para que ele atenda o último pedido de Eugene.

Coloco entre aspas porque mesmo prometendo que iria cumprir o combinado, Joel acaba abatendo Eugene sem ter Ellie por perto. Voltando para Jackson para dar a notícia a Gail, Joel mente e distorce o acontecimento quando prontamente Ellie conta toda a verdade do que aconteceu.

Esse é um momento inexistente nos jogos e achei bem curioso a série ter decidido criar uma sequência para isso. Ellie aqui tem mais que certeza do massacre que Joel cometeu em Salt Lake City contra os Vagalumes, consequentemente negando uma possível cura. É diferente a forma como Druckmann e Gaiman decidiram fazer ela descobrir de fato o que aconteceu, visto que no jogo ela retorna para o hospital em Utah para encarar o local do acontecimento.

Ela percebeu que Joel mentiu mais uma vez, sem demonstrar necessariamente a mentira, utilizando o mesmo olhar que havia feito anos atrás. Suas mentiras servem para proteger de mais os outros da verdade nua e crua, mesmo que com boas intenções elas ainda podem causar um mal muito mais poderoso do que a veracidade dos fatos. E o preço que ele tem que pagar por isso é perder a companhia de Ellie e conviver com essa dor em sua consciência.

A série retorna para a festa de ano novo de Jackson, a mesma lá do início da temporada. Tudo isso para nos colocar novamente na cena da varanda, um momento tão importante para a narrativa do jogo que já se faz presente aqui. A conversa extremamente emocionada de Joel e Ellie nos faz lembrar da conexão que os personagens tiveram, daquele sentimento de ter sido traído por uma pessoa que você tanto ama.

Não acho que Druckmann quer vilanizar Joel, afinal de contas, tudo que ele fez foi egoísta mas condizente com o personagem. A série bateu muito na tecla da crueldade e frieza que ele teve com o pai da Abby desnecessariamente, sendo muito expositiva em alguns momentos, mas conseguiu humanizar o personagem ainda mais com esse episódio.

Isso foi importante porque se The Last of Us trás uma temática tão batida e pouco interessante quanto um apocalipse zumbi, os personagens são o que faz valer a história. Tudo gira em torno deles, suas relações, ações e as consequências que vem com elas. Isso que fez a franquia ser um sucesso e acredito que esse episódio é um lembrete perfeito disso.

\"The
A conversa entre os dois na varanda. (HBO/Reprodução)

Ao ter a conversa que, mais uma vez, foi extremamente bem atuada por Pedro e Bella, Ellie percebe que aquele ainda é o homem mais próximo de um pai que ela vai ter. O peso de ter tido seu destino negado pelo egoísmo de um homem recai sobre os ombros de Ellie a fazendo dizer que nunca perdoará Joel pelo que ele fez. Mas ao mesmo tempo, ela está disposta a tentar porque sabe que o amor que os dois possuem um pelo outro é mais forte.

Joel diz que fez tudo aquilo e faria novamente porque a ama. Porque foi nela que ele reencontrou a felicidade depois que o mundo foi pelos ares ao perder sua filha. E ele faria e mentiria novamente para protegê-la disso tudo. Cena brilhantemente conduzida pelos dois atores que entregaram os melhores momentos dos dois personagens até aqui.

Eu entendo as conduções desse episódio, as mudanças e concessões que precisaram ser feitas. Não acho que o núcleo dos acontecimentos tenha sido drasticamente mudado mas houve mudanças no peso das questões. Consigo ver algumas pessoas decepcionadas com o direcionamento que o roteiro deu para a história, provando mais uma vez que a segunda temporada de The Last of Us veio para ser divisiva assim como o segundo game. 

Se o ritmo atrapalhou muito nos dois últimos episódios, aqui ele foi perfeitamente conduzido. Mostrar a relação de Joel e Ellie se deteriorando conforme os flashbacks acontecem é um recurso muito bem utilizado pelos produtores. Criar novas sequências entre as duas temporadas para além daquelas que vimos no jogo (mesmo que algumas tenham ficado de fora) ressoa bem com a primeira temporada da série e entrega o melhor episódio desse segundo ano.

No fim, vemos Ellie retornando em meio a uma tempestade para o teatro no centro de Seattle. Resta esperar para ver em que momento teremos a interrupção da segunda temporada e como eles vão dividir essa narrativa. Mais um episódio para termos essa dúvida sanada.

The Last of Us está em exibição pela HBO com o último episódio chegando no próximo domingo (25) às 22h. A série também fica disponível no mesmo horário no Max.

Leia mais:

The Last of Us: Lev e Yara vão aparecer na série da HBO?

The Last of Us: Jesse morre na série?

Tags:

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar sobre
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentarios
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x