The Last of Us: final da 2ª temporada tem tensão e falhas
Críticas

The Last of Us: final da 2ª temporada tem tensão e falhas

Chegamos ao final da segunda temporada de The Last of Us com o episódio 7. Foram domingos empolgantes acompanhando a série baseada na obra...

Matheus Cabral Matheus Cabral há 11 meses
Nota 7

Leitura crítica

Chegamos ao final da segunda temporada de The Last of Us com o episódio 7. Foram domingos empolgantes acompanhando a série baseada na obra...

Chegamos ao final da segunda temporada de The Last of Us com o episódio 7. Foram domingos empolgantes acompanhando a série baseada na obra da Naughty Dog. Acabamos nos deparando com talvez o fim da jornada de Ellie (Bella Ramsey) em Seattle, com um capítulo que entrega bastante atmosfera e conflitos, mas que ao mesmo tempo evidencia erros que a temporada teve em decisões de roteiro.

A segunda temporada finaliza trazendo um episódio eletrizante, tenso e atmosférico. Além disso, também abre outra parte do livro dessa grande história, demonstrando um gostinho do que esperar para a terceira temporada da série. Craig Mazin e Neil Druckmann encerram com mais pontos altos do que baixos, mas também entregaram momentos e decisões questionáveis que enfraqueceram a narrativa.

Lembrando mais uma vez que a crítica não possui spoilers da história para além do que foi adaptado na série. Quem não jogou o segundo game ainda e se manteve blindado até aqui, siga tranquilo que a jornada por esse texto é segura.

Convergência: enfraquecimento da narrativa

Ellie e Jesse possuem conversas interessantes nesse episódio. (HBO/Reprodução)

O nome do sétimo episódio também não traz uma referência direta à lore do universo de The Last of Us. Aqui temos mais uma questão de como a narrativa vai chegar até determinado ponto onde a jornada de Ellie e Abby (Kaitlyn Dever) vão convergir, mesmo que ainda não tenhamos visto muito de um lado da história. Os caminhos das duas se cruzaram novamente, e mais uma vez houve perdas relacionadas a esse encontro.

Eu preciso começar essa crítica elogiando mais uma vez a produção da série. A cinematografia e a fotografia do episódio estão sensacionais, trazendo uma atmosfera bem sombria e tensa para todos os locais visitados pelos personagens. A chuva que cai pesada e contínua em Seattle foi muito bem retratada aqui, mas o que me deixa triste é ver todo esse valor de produção e atmosfera ser desperdiçado em alguns momentos.

Reclamei anteriormente que muitas sequências foram tão rápidas que mal dava para sentir o local, deixando tudo muito apressado e prejudicando a imersão. Obviamente não estou cobrando que a série seja imersiva igual ao game, coisa que não aconteceria de forma alguma. Mas fica meio chato ver tanto trabalho da produção passar rápido. Não dá para sentir os locais e as sequências que Ellie passa, justamente pela pressa em adaptar de uma vez essa primeira parte do jogo.

Começamos o episódio com uma cena que eu gostei bastante: a retirada da flecha da perna da Dina (Isabela Merced). É um momento bem forte com um bom diálogo entre ela e Jesse (Young Mazino), demonstrando o quão competentes são os dois atores. A dor que ela sente, combinada com o temporal que cai lá fora, nessa expectativa de saber se Ellie está bem ou não, deixa tudo muito bem apresentado.

A conversa dos dois sobre não poder morrer ali, e que vai implicar diretamente em outra questão com a Ellie depois, é muito bem colocada. Há momentos em que o roteiro acerta, mas, quando erra, acaba me conduzindo para um ponto de questionamento gigante.

Ellie finalmente retorna depois de todo acontecimento no hospital-base da WLF. Na conversa com Dina e ao revelar para ela tudo relacionado a Joel (Pedro Pascal) e Abby, percebemos que a relação entre as duas dá uma estremecida. Ali é Ellie revelando um lado obscuro dela para aquela que é seu grande amor, tendo até uma mudança perceptível no olhar de Dina para toda aquela situação.

Ao saber de tudo, Dina toma a decisão de que eles precisam ir embora dali rapidamente. Ellie confirma que é isso mesmo que eles têm que fazer, demonstrando ter ficado extremamente impactada com a forma como fez Nora (Tati Gabrielle) contar onde Abby estava. A violência que ela mesma causou a impactou profundamente, mesmo que sua vontade ainda seja ir atrás de vingança.

Jesse cresce, mas Ellie vira uma personagem inconsistente

Iniciando o dia 3 em Seattle, Jesse e Ellie precisam sair pela cidade para achar Tommy (Gabriel Luna) em uma livraria que havia sido marcada como ponto de encontro. Os dois possuem uma conversa muito bem escrita, onde Jesse acaba sabendo que Dina está grávida dele ao perceber a escolha de palavras que ela usou ao ter a flecha retirada da perna na noite passada.

Jesse sabe agora que, mais do que nunca, precisa sair dessa cidade vivo juntamente com Dina. Ele quer desempenhar o papel de pai, deseja ser presente na vida de seu filho. Para que isso aconteça ele precisa deixar de lutar uma batalha que não é a dele. Mais maduro e consciente, Jesse sabe que toda essa jornada para Seattle é perigosa e descabida. A vingança pode tirar muito mais da vida de uma pessoa, e isso vai se refletir nos momentos finais desse episódio.

É uma pena que Jesse tenha quase entrado mudo e saído calado da série. No jogo, ele já passa essa sensação de ter sido mal aproveitado e eu realmente esperava que fosse dada mais atenção para ele por parte do roteiro. Algumas sequências envolvendo o personagem foram retiradas, mesmo que esse episódio tenha compensado um pouco sua participação.

Existem cenas nesse capítulo que me incomodaram um pouco. Ellie e Jesse observando um garoto serafita ser atacado por um grupo de soldados da WLF, e ela simplesmente querer ajudá-lo do nada, é meio descabido. Eu entendo que a cena serviu para mostrar um pouco mais do conflito entre os dois grupos, mas a atitude da Ellie em querer ajudar de qualquer jeito aquele garoto é esquisita.

A série parece querer colocar um sentido heroico para a personagem que não cabe nela aqui. E isso ficou bem estranho e pouco condizente com o que conhecemos da Ellie. Enquanto Jesse, que é aquele com mais espírito de herói, se recusa a querer ajudar o garoto, Ellie pensa em jogar tudo para o alto por uma pessoa que ela desconhece.

Ao chegarem na livraria, mais uma conversa bacana entre Ellie e Jesse. Ele revelando que teve que deixar o amor de sua vida ir embora para retribuir aquilo que Jackson fez por ele é bem interessante. Jesse é o bom moço da história, o personagem mais altruísta, aquele que deseja o bem de todos. Foi interessante ver ele falando sobre esse passado que não conhecíamos.

O rádio da patrulha toca e informa que existe um sniper não serafita encurralando membros da WLF. Jesse e Ellie sabem bem que aquele é Tommy. Isso é bem parecido com o que acontece no game, apesar de uma sessão ou outra ter sido descartada.

Eu ainda não entendi as mudanças feitas na jornada de Tommy para a série. No game, ele já estava em Seattle antes de Ellie e Dina, e é justamente os seus rastros que são o guia para o caminho que as duas vão seguir pela cidade. No fim, tudo chegou aos mesmos momentos, não ficando claro o porquê das mudanças em relação ao personagem.

Ellie decide ir atrás de Abby ao invés de ajudar Tommy quando finalmente entende as mensagens de Nora e visualiza o aquário. A personagem da Ellie foi a mais prejudicada pelo roteiro durante essa segunda temporada, na minha opinião. Não somente pelas mudanças em si, pois realmente acredito que deve haver espaço para outras interpretações, mas porque fica um papo meio estranho ao ver que ela se sacrificaria para proteger um desconhecido, mas decide não ir em ajuda a Tommy. A personagem acabou se tornando inconsistente na maioria das vezes.

O pulso da vingança fica forte nesse momento. Ela sabe que é uma oportunidade de ir atrás de Abby. O problema é que a série já mostrou algumas cenas dela supostamente arrependida de ter tomado todo esse caminho. Ela já visualizou que talvez tudo isso não vá valer a pena, então a construção dessa personalidade fica fraca. A mudança de decisão rápida, tendo em vista tudo que já aconteceu, parece forçada.

A Ellie parece ser uma personagem nessa segunda temporada de The Last of Us que bambeia entre o lado de aceitar que tudo aquilo é prejudicial ou seguir no caminho vingativo. O roteiro parece não entender, ou não querer assumir, nenhum dos dois lados. Ela age de formas diferentes, por vezes tranquila demais diante das situações, e em determinados momentos tem lampejos do que conhecemos dela no game. Perde a força e desestabiliza a personalidade da personagem.

Atmosfera e trilha sonora seguem como grandes forças

Toda sequência do barco com Ellie enfrentando a tempestade e as ondas foi muito bem produzida. Ver como a produção filmou e idealizou essas cenas no making of acrescenta bastante para a experiência. Como disse anteriormente, a atmosfera desse episódio está sensacional justamente por conta da excelente fotografia. Deu para sentir a chuva pesada, o clima tenso. Pena que quase nada disso foi aproveitado da maneira que poderia.

Algo que eu não comentei em nenhum momento durante a temporada, mas que eu acho espetacular também, é a trilha sonora. Me parece serem as mesmas músicas utilizadas nos momentos de gameplay. Elas são bem situacionais, mas trazem aquele clima de adrenalina e tensão que as cenas precisam. Em valor de produção, a série não deve em nada.

A Ellie na ilha dos Serafitas foi bem esquisita. É uma cena sem pé nem cabeça, sem propósito, que parece ter sido inserida ali só para inflar o episódio de alguma maneira. Nada justifica as duas cenas, não servindo para a construção da personagem nem para alguma situação realmente relevante.

O aquário funciona, mas reforça a indecisão do roteiro

Owen e Mel possuem o mesmo destino do jogo, mas de forma diferente na série. (HBO/Reprodução)

O dia 3 em Seattle é marcado pela entrada de Ellie no aquário para procurar Abby e se deparar com Owen (Spencer Lord) e Mel (Ariela Barer) discutindo questões sobre a mesma. Esse momento foi bem encenado, gostei das mudanças feitas, e ele condiz com esse balanceio da Ellie entre realizar a vingança completamente ou não. Mas o peso dessa sequência é bem diferente no jogo, já que aqui ocorre um acidente na morte de Owen e Mel, enquanto em Part II ela os mata por vontade própria.

O paralelo que o roteiro faz com Mel estando grávida, da mesma forma que Dina, é bem chocante. Ela não matou apenas duas pessoas, mas três, interrompendo uma mãe e um pai de criarem seu filho. Ellie já percebe que não é melhor que Joel como ele gostaria que ela fosse, ficando ainda mais traumatizada com tudo isso.

Ficou claro que Druckmann e Mazin quiseram atenuar a crueldade que Ellie demonstra durante todo o jogo. Mas isso foi prejudicial porque, ao meu ver, me deixou confuso quanto às escolhas e reações que ela teve durante toda a história. Esse momento do aquário, apesar de bem realizado, evidencia mais um pouco essa falta de decisão quanto à jornada e ao que pensa a Ellie da série.

Final prepara a terceira temporada, mas adaptação fica abaixo do jogo

O caminho de Ellie e Abby converge no teatro. (HBO/Reprodução)

Para encerrar a série, os produtores decidiram finalizar no momento que eu já esperava: a chegada de Abby ao teatro. Após um breve momento de paz entre Ellie, Tommy e Jesse, tudo é interrompido quando Abby chega e faz o irmão de Joel de refém. Todo esse momento é idêntico a The Last of Us Part II e funcionou bastante, inclusive na escolha de corte que os produtores decidiram.

A série resolve finalizar aqui para deixar claro que a próxima temporada será realmente o ponto de vista da Abby desde o dia 1 em Seattle. Será interessante ver como o público vai reagir e como eles vão decidir abordar tudo isso.

The Last of Us: segunda temporada não chegou ao nível do game

Encerramos todas as críticas da segunda temporada de The Last of Us com esse sétimo episódio. A sensação que fica é que essa adaptação não conseguiu alcançar o patamar que o segundo jogo criou.

Quem viu a primeira temporada compreendeu: a série não ia ser ação pela ação. E o problema desse segundo ano nem foi a falta de cenas com mais combates, infectados ou momentos tensos. A série falhou em trazer um pouco mais do sentimento entregue pelo enredo do jogo.

Com indecisões para a personalidade de Ellie, momentos esquecidos que podiam ter entrado na adaptação e um complemento menor de alguns fatores do universo, fica a sensação de que a série perdeu seu rumo. É quase como se tivessem desperdiçado o potencial do roteiro do game e do elenco grandioso que tinham nas mãos.

Essa jornada com a segunda temporada de The Last of Us foi tão rápida que faltou sentir mais tudo o que aconteceu, algo que definitivamente é uma maestria na mídia original. O segundo ano apresentou inconsistências que a primeira temporada não demonstrou, caindo de nível e tirando força da história e da mensagem.

Mesmo assim, acredito que a ideia que o segundo jogo passa foi parcialmente entregue. A espiral de violência segue sendo o ponto importante da narrativa. A série entregou isso até aqui, mas não ficou tão bom quanto no jogo.

No mais, acredito que os produtores de The Last of Us não deveriam fazer o público esperar mais dois anos para que tenhamos uma continuação dessa história. Ainda há muita coisa para apresentar, e deixar tudo esfriar não parece a melhor decisão. Espero que as coisas melhorem no terceiro ano, porque a franquia merece muito mais do que foi apresentado aqui.

Também fico feliz por ver uma obra tão querida alcançar mais pessoas, mesmo que talvez esta ainda não seja sua melhor versão.

The Last of Us está concluída e pode ser assistida por completo na Max.

Tags:

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar sobre
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentarios
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x