Uma imagem divulgada pela NASA está chamando atenção por apresentar a Terra com uma aparência bastante diferente do globo azul e quase perfeitamente redondo visto nas fotografias espaciais. Na visualização, o planeta parece irregular, cheio de elevações e depressões que lembram uma enorme batata colorida.
Isso significa que a Terra não é redonda? Não exatamente. O planeta continua sendo aproximadamente esférico, mas não forma uma esfera perfeita. Além disso, a imagem publicada pela agência espacial não mostra a superfície física da Terra, e sim um modelo conhecido como geoide.
A visualização foi publicada pelo Estúdio de Visualização Científica da NASA na quarta-feira (15). O modelo apresenta as diferenças no campo gravitacional terrestre e exagera propositalmente suas deformações em 10 mil vezes, tornando visíveis alterações que seriam praticamente impossíveis de perceber a olho nu.
Afinal, a Terra é redonda?
Em linguagem cotidiana, é correto dizer que a Terra é redonda. Cientificamente, entretanto, sua forma é descrita com mais precisão como um esferoide oblato, semelhante a uma esfera levemente achatada nos polos e mais larga na região do Equador.
Esse formato é causado principalmente pela rotação do planeta. O movimento gera um pequeno alargamento equatorial, enquanto as regiões próximas aos polos ficam ligeiramente achatadas.

A própria NASA explica que a Terra não é uma esfera perfeita, embora continue sendo redonda. Além da rotação, movimentos do planeta e outros processos naturais podem alterar lentamente sua forma.
A NOAA, agência norte-americana responsável por pesquisas oceânicas e atmosféricas, usa o termo elipsoide irregular. Montanhas, fossas oceânicas, movimentações tectônicas, terremotos e diferenças na distribuição de massa tornam a forma real ainda mais complexa.
O que é o geoide mostrado pela NASA?
O geoide não é uma fotografia nem uma representação direta do relevo terrestre. Ele é uma superfície matemática baseada no campo gravitacional do planeta.
Uma maneira simples de imaginá-lo é pensar em como ficaria a superfície dos oceanos caso fossem eliminados ventos, ondas, marés e correntes marítimas. A água se acomodaria apenas de acordo com a gravidade e a rotação da Terra, formando uma superfície irregular, porém em equilíbrio.
Essa superfície teórica seria prolongada também por baixo dos continentes. Ela funciona como uma espécie de nível médio global do mar, utilizado como referência para medir altitudes e profundidades com precisão.
Como a massa da Terra não está distribuída igualmente, a gravidade varia ligeiramente de um lugar para outro. Regiões com determinadas formações rochosas, cadeias montanhosas ou estruturas subterrâneas podem exercer uma atração gravitacional um pouco maior. Outras áreas apresentam valores menores.
É essa distribuição desigual que produz as elevações e depressões exibidas no geoide.
A Terra realmente tem aquelas deformações?

O planeta não possui fisicamente as enormes ondulações vistas na imagem viral.
A NASA informa que a altura representada pelo geoide varia de aproximadamente 85 metros acima da referência, na região da Islândia, a 106 metros abaixo, ao sul da Índia. A diferença total fica perto de 191 metros, algo minúsculo quando comparado ao raio terrestre, que supera 6,3 mil quilômetros.
Para deixar essas alterações perceptíveis, a visualização aumentou as diferenças de altura em 10 mil vezes. Sem essa ampliação, o modelo continuaria parecendo praticamente uma esfera lisa.
As cores também não correspondem necessariamente à aparência ou à altitude do terreno. Elas servem para destacar diferenças no modelo gravitacional. Portanto, uma área vermelha ou elevada no geoide não significa automaticamente que exista ali uma montanha gigantesca.
Como a NASA criou o modelo?
A visualização utiliza informações do GOCO06s, um modelo global do campo gravitacional calculado exclusivamente com dados de satélites.
Segundo a NASA, foram reunidas mais de 1 bilhão de observações, obtidas ao longo de 15 anos por 19 satélites. Entre eles estão os equipamentos das missões GRACE, da NASA, e GOCE, da Agência Espacial Europeia.
A missão GRACE monitorou pequenas mudanças na gravidade terrestre ao acompanhar variações na distância entre dois satélites que viajavam juntos. Ao passar por uma região com maior concentração de massa, o primeiro equipamento sofria uma aceleração ligeiramente diferente do segundo.
Já o satélite GOCE, lançado pela Agência Espacial Europeia em 2009, foi construído especificamente para mapear o campo gravitacional do planeta com alta precisão. Seus dados ajudaram a produzir modelos detalhados do geoide e a compreender melhor a circulação oceânica, o nível dos mares e a estrutura interna da Terra.
Para que serve o geoide?
O geoide possui aplicações importantes em áreas como cartografia, geologia, oceanografia e navegação por satélite.
Os sistemas de GPS conseguem calcular uma posição em relação a um elipsoide matemático. Para transformar esse resultado em uma altitude mais próxima do conceito de “altura em relação ao nível do mar”, é necessário utilizar um modelo do geoide.
Ele também ajuda pesquisadores a:
- medir altitudes com maior precisão;
- acompanhar mudanças no nível dos oceanos;
- estudar correntes marítimas;
- observar o derretimento de geleiras;
- investigar a distribuição de massa no interior do planeta;
- analisar efeitos de terremotos e movimentos tectônicos.
A Agência Espacial Europeia considera o geoide uma referência essencial para pesquisas sobre circulação oceânica, mudanças no nível do mar e dinâmica das camadas de gelo.
A NASA descobriu agora que a Terra não é uma esfera?
O formato irregular do planeta e o conceito de geoide são conhecidos e estudados há muito tempo.
A publicação recente da NASA apresenta uma nova visualização do modelo GOCO06s, cuja pesquisa científica foi publicada em 2021. Portanto, não se trata da descoberta de um “novo formato” da Terra, mas de uma maneira mais acessível de visualizar pequenas diferenças no campo gravitacional terrestre.
Também não há qualquer relação entre o geoide e teorias de que a Terra seria plana. Fotografias espaciais, eclipses, observações astronômicas, medições geodésicas e dados de satélites demonstram que o planeta possui uma forma aproximadamente esférica.
A imagem deformada apenas mostra que, quando analisada com extrema precisão, a Terra não é uma esfera matematicamente perfeita.
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